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É importante lembrar-se  que a história aconteceu na Europa antes que alguém se tenha lembrado de a escrever. Por volta do ano 4000 A. E. C. (“Antes da Era Comum”) as tribos que falavam uma linguagem que os linguistas referem como sendo o “Proto-Indo-Europeu” começaram a migrar para longe de sua pátria original, que era provavelmente o território ao redor das margens de Noroeste do Mar Negro. Alguns foram para sudeste e fundaram as culturas Arménia, Iraniana e Hindu (arqueólogos Hindus, entretanto, insistem que tudo começou na Índia e que mais tarde desceram para oeste). Outros foram para sul para a Anatólia e para a Palestina, tornando-se conhecidos como Hititas e Mitannos. Os que foram para sudoeste, para os Balcãs tornaram-se Trácios e Gregos. Outros que foram para oeste e norte estabeleceram as culturas Eslavas, Celtas, Germânicas e Bálticas.

 

Todo este movimento migratório durou muitos séculos e pode ter envolvido muito sangue derramado. Antigos habitantes de um pedaço dado de território tinham de ser convencidos, às vezes pela espada, a deixar os recém-chegados se instalarem — e lá ia a vizinhança! As culturas Pré-Indo-Europeias na Europa (que não eram “pacificamente matriarcais” -  apesar das teorias politicamente correctas da actualidade possam querer nos fazer acreditar ) estavam ainda todas no início do Neolítico ou “Nova Idade de Pedra” quanto ao seu desenvolvimento cultural. Isto indica que apenas possuíam machados de pedra, pontas de flechas de pedra, lanças e facas (muitas das quais foram encontradas) para se defenderem. Os recém-chegados Indo-Europeus tinham armas de bronze e armaduras com que lutar ou caçar, com machados de bronze para limpar as grandes florestas que cobriram o continente, arados de ponta de bronze para arar a terra, etc.

 

A teoria arqueológica actual defende que a transmissão de linguagens Indo-Europeias e as suas intrínsecas misturas genéticas teriam sido feitas através de transferências pacíficas de conhecimento (e trocas de esposas) entre as tribos vizinhas, bem como pela guerra. A imagem popular do estropio , pilhagem, e saque bárbaro Indo-Europeu durante o seu caminho pelo Continente, deve-se essencialmente à perspectiva cultural de arqueólogos obsoletos do século 19, a sabedoria dos quais aliás, proveniente de culturas imperialistas, como o provam as evidências arqueológicas ou os antigos mitos  e sagas Indo-Europeias que chegaram até nós. A maioria dos antigos historiadores e geógrafos, devemos lembra-nos, compunham os seus trabalhos para entreter os guerreiros nos seus festins, e  é essa a razão de terem colocado muito mais ênfase na violência e na chacina do que a que foi realmente experimentada por seus predecessores.

 

O impacto das tecnologias da Idade do Bronze Superior Indo-europeia (e da Idade do Ferro tardia) poderá ser julgada pelo fato de que, na altura da ocupação Romana, quase todas as línguas faladas na “Europa” (excepto o Basco, “Lappish” e Finlandês) eram membros do ramo Ocidental da família Indo-Europeia da linguagem. Toda a parte Oeste dos Urales era basicamente dominada por uma alargada inter-ligação de aglomerados culturais relacionados. Cada um deles uma mistura de uma ou mais culturas Indo-Europeias, além das influências culturais que advinham dos antigos habitantes dos territórios que agora ocupavam. O maior grupo de culturas a norte das fronteiras Romanas eram Celtas, e o segundo maior Alemãs. Alguns historiadores consideram os Alemães como sendo tão próximos, na relação cultural, aos Celtas que os chegam mesmo a considerar um sub-ramo, pelo menos em termos de arqueológicos (isto irrita profundamente os arqueólogos alemães ).

 

No início da Era Comum, o Paleo-Paganismo Europeu consistia em pelo menos quatro camadas interligadas: em primeiro lugar, as religiões Pré-Indo-Europeias originais (as quais eram naturalmente também o resultado de vários milénios de evolução religiosa e de misturas culturais entre múltiplas etnias); em segundo lugar, o sistema  de crença Proto-Indo-Europeu praticado pelos falantes Proto-Indo-Europeus antes destes começarem as suas migrações; em terceiro lugar, as variações das crenças da Idade do Bronze tal como foram adaptadas ás diferentes bio-regiões e aos complexos culturais já existentes, e em quarto e ultimo lugar, as grandes “religiões superiores” das culturas Indo-Europeias “plenamente desenvolvidas” e aparentemente distintas. Distinguir claramente estas várias camadas será uma tarefa árdua para os historiadores, já para não falar na quantidade de tempo que levará a separá-las se é que isso alguma vez será possível. Graças ao trabalho de Georges Dumezil e outros, temos uma ideia clara das funções religiosas, mágicas, políticas e sociais da casta sacerdotal do Paleo-Paganismo Indo-Europeu. Uso a palavra “casta” deliberadamente, visto que as culturas Indo-Europeus Ocidentais parecem ter sido construídas sobre a mesma base de padrão social como aquela que nos é familiar na Índia de Védica: o clero, os guerreiros, a classe alta e baixa (fazendeiros, artesãos, comerciantes, etc.), mais os escravos/serviçais, estrangeiros, aculturados, e algum tipo de “realeza” no centro de cada tribo. Aliás, a mesma correspondência pode ser feita entre as funções sociais, políticas e religiosas originalmente representadas por um Latino “flamen,” um Céltico “draoi” (druida), ou um “braman” dos Védicos.

 

O clero Indo-Europeu basicamente incluiu a intelligensia das suas culturas: poetas, músicos, historiadores, astrónomos, genealogistas, juízes, adivinhos, e naturalmente, líderes e supervisores de rituais religiosos. Oficialmente, estavam abaixo dos líderes tribais locais ou “reis” e acima dos guerreiros. No entretanto, uma vez que os reis eram figuras quase religiosas, normalmente indiciadas pelos cleros, e frequentemente dominado por eles, poder-se-ia duvidar sobre quem detinha o poder numa determinada tribo. O clero Gaulês era isento de imposto e serviço militar, e diz-se que despendiam décadas em treino especializado. O clero IE parece ter sido responsável por todos os rituais religiosos públicos (os privados eram regidos pelos chefes de cada lar).

As Cerimónias Públicas eram geralmente efectuadas em bosques de árvores sagradas. Na Europa, estes eram normalmente de Vidoeiros, Teixo, e Carvalho (ou Freixo onde os Carvalhos eram raros), dependendo dos Espíritos, Antepassados, Divindades bem como da ocasião. Vários membros da casta sacerdotal seriam responsáveis para música, recitação de preces, sacrifício de animais (ocasionalmente humanos - criminosos ou prisioneiros de guerra), prescutação das chamas do fogo ritual ou das entranhas da vítima do sacrifício e outros deveres rituais menores. Membros mais velhos da casta (druidas, bramans, etc.) seriam responsáveis por assegurar que os rituais eram executados exactamente de acordo com tradição. Sem tal supervisão, os rituais públicos eram geralmente impossíveis, porque a recriação do cosmos do incauto e inexperiente oficiante poderia ser  errónea, o que traria um perigo enorme à tribo. Daí talvez o comentário de César de que em todos os ritos públicos Gauleses teriam de ter a presença obrigatória de um Druida.

 

Há indicações precisas que o clero Indo-Europeu partilhava determinadas opiniões politeologicas e místicas comuns, embora apenas tenhamos conhecimentos vagos a esse respeito actualmente. Havia a crença na reincarnação (com o tempo entre vidas partilhado num lugar entre-mundos muito similar à vida terrestre), na sacralidade de árvores específicas, no relacionamento continuado entre mortais, antepassados e divindades, e naturalmente nas leis comuns da magia. Haveria também, creio, uma tradição europeia de sexo tântrico e de magia com utilização de drogas, embora seja possível que estes fossem na maior parte métodos xamanicos Pré-IE, que sobreviveram nas influências dos territórios da Ásia Central e da Finlândia (os quais, nesta altura ainda detinham um comportamento cultural de caça/colheita, necessário ao xamanismo) sendo absorvidos e modificados.


Apenas o clero celta ocidental (os druidas) parecessem ter tido toda a espécie de redes de comunicações inter-tribal organizadas, através dos bardos viajantes e dos brehons (juízes/mediadores) os quais também viajavam. A maioria do clero IE parece ter-se mantido nas suas próprias tribos locais. Entre os povos Germânicos, a classe clerical tinha-se enfraquecido nos primeiros séculos da Era Comum ao ponto da maioria dos rituais serem executados pelos chefes de família.


Não sabemos se apenas as mais altas classes sacerdotais se dedicariam por completo à vida sacerdotal. No auge das culturas Celtas, o estudo para efectivar uma vida sacerdotal foi dito durar vinte anos de trabalho duro (embora isto apenas possa ter sido reflectido no seio de famílias druídicas), o que não deixaria muito tempo ou energia para o desenvolvimento de outras carreiras. Entre os Escandinavos, parece ter havido sacerdotes e sacerdotisas (godar, gydjur) que viveram em templos pequenos e que passeavam ocasionalmente pelas aldeias imagens das suas Divindades com as quais, se acreditava, terem “casado”(como acontece com sacerdotes em alguns Meso-paganismos  afro-americanos tal como os Voudoun). Na aparente exclusão de deveres por parte dos sacerdotes das culturas Germânicas, Eslávicas e Bálticas, haveria no entanto um trabalho parcial, costume comum em muitas sociedades tribais.

 

Comum será também para muitas culturas tribais terem os seus curandeiros ocasionais que poderiam usar ervas, hipnose, psicologia, massagens, magia e outras técnicas. Frequentemente teriam também adivinhos ou prescutadores dos estados atmosféricos (ou controladores desses mesmos estados). As parteiras, quase sempre mulheres, são também comuns e, como mencionado acima, há geralmente sacerdotisas ou sacerdotes que trabalham pelo menos parcialmente. O que causa confusão, especialmente quando se trata de culturas extintas, é que tribos diferentes delegam estes ofícios em pessoas diferentes. Um ponto importante para os Wiccans será que todas as culturas IE tinham palavras específicas para sacerdote, sacerdotisa, curandeiro, parteira, adivinho, casamenteira, conselheira, sábio ou sábia, etc.. - nenhuns dos quais se pareça ter sido relacionado linguisticamente, excepto no sentido o mais metafórico possível, às várias palavras que se transformaram em wicce/wicca. no Anglo-Saxão, e eventualmente na palavra witch. do inglês moderno. Apesar da opinião moderna de alguns Wiccans de que wicca. significaria “aquele que sabe”, parece que o que realmente quereria significar seria “o que molda”, “o transformador”, ou possivelmente “o que invoca” com uma conotação neutro-a-negativa mesmo entre os Paleo-Pagãos. Seja o que for que possam ter sido, para bom ou mau, as bruxas dos Paleo-Pagãos não eram os sacerdotes e as sacerdotisas da Velha Religião.

 

Os Romanos descobriram, quando conquistando a Ibéria (Espanha e Portugal modernos), que os druidas eram fonte de problemas, visto os seus membros advertirem as tribos ainda não subjugadas, do que seria de esperar das conquistas Imperiais. Julius Caesar conhecia bem esta história e fez dela um dos objectivos principais na sua conquista da Gália, matando cada Druida em que as suas tropas poderiam pôr as mãos (à excepção de algumas “guias nativos”). Quando o Império Romano mudou a sua liderança, continuado sob um novo comando, a igreja perpetuou esta política matando todos os Druidas (ou outro membro da casta sacerdotal Paleo-Pagã de outras culturas) que se recusavam a reconverter. Assim, por volta do sétimo século E.C., o clero Paleo-Pagão tinha sido assassinado, reconvertido ou mantendo-se completamente oculto nas terras Celtas do Ocidente. Nas partes de Gales e Irlanda, e possivelmente nas Terras-Altas da Escócia, os fragmentos de Druidismo parecem ter sobrevivido sobre pesado disfarce através de instituições como a Igreja Celta, dos bardos e dos poetas, bem como nos costumes populares (especialmente nas celebrações sazonais). Alguns destes fragmentos da opinião e da prática Druídica, juntamente com muita especulação e alguma invenção, inspiraram a criação de fraternidades de druidas do Meso-paganismo no séc. 18. Estes grupos baseiam-se nestes fragmentos (e em especulações e  divagações perfeitamente falsas) ainda hoje, aumentando-os com elementos do folclore e outros elementos de pesquisa.

 

Estas para a maioria dos americanos pareciam serem as únicas fontes de informação sobre o Druidismo Paleo-Pagão. No entanto, a pesquisa feita por estudiosos da Rússia Oriental e por antropólogos e por musicólogos nos povos  da Látvia no Báltico, da Lituânia e da Estónia indicam que as tradições dos Paleo-Pagãos podem ter sobrevivido nas vilas pequenas, escondidas nas florestas e nos pântanos, ainda hoje! Algumas destas vilas tiveram ainda quem se vestisse de branco com longas túnicas e saísse para os bosques sagrados praticando os seus cultos, na altura da segunda Guerra Mundial! Os cientistas  estatais soviéticos entrevistaram o clero local, gravaram as suas cerimónias e canções. Em suma, um estudo completo e profundo das suas tradições, preparando-as para a transformação marxista. Ironicamente, algumas das mais antigas tradições Indo-Europeias que se mantiveram (junto com fragmentos do vocabulário de línguas Proto-Alemãs e outras antigas línguas IE) parecem ter sido mantidas por povos Filando-Ugricos tais como o Cheremis. A maior parte da informação recolhida desta pesquisa foi publicada numa variedade de livros e de jornais académicos soviéticos, e nunca foi traduzida. Este material, quando combinado com o Védico e as fontes Celtas, poderia-nos dar mais elos de ligação imprescindíveis ao reconstucionismo do Druidismo Paleo-Pagão.


No entanto, existem alguns equívocos e factos sem provas de existência em relação aos antigos Druidas que necessitam ser mencionados: Não há nenhuma indicação real que os Druidas tivessem utilizado os altares de pedra (em Stonehenge ou seja lá onde for); que eram melhores na filosofia do que os gregos antigos ou os clássicos egípcios; que tivessem qualquer ligação com os continentes míticos da Atlântida ou de Mu; ou que vestiam trajes Maçónicos dourados ou que usassem palavras de passe Rosacrucianas. Não foram os arquitectos (a) de Stonehenge, (b) dos círculos e das linhas megalíticas da Europa do noroeste, (c) das pirâmides de Egipto, (d) das pirâmides das Américas, (e) das estátuas da Ilha da Páscoa, ou (f) qualquer coisa à excepção de celeiros de madeira, de casas de pedra, ou ocasionalmente de um forte numa colina. Não há nenhuma prova que alguns deles tivessem sido monoteístas, ou cristãos do Cristianismo Pré-Cristão, ou que compreenderam ou inventaram o misticismo Pitagórico, gnóstico ou Cabalístico, embora muito do misticismo de Pitágoras pudesse ter origem em raízes IE comuns ás do misticismo Druídico.

 

Nem todos tinham longas barbas brancas, o que seriam difícil para o 50% da casta que eram mulheres ou crianças. O uso pelos antigos druidas, de foices douradas ou de ouro é também altamente improvável, apesar do que Plínio diz, porque as suas lâminas de corte seriam demasiado macias para colher o visco, que é uma planta excepcionalmente resistente (embora as foices sejam um símbolo excelente para uma religião baseada na Natureza que dá grande importância a oferendas e colheitas dos resultados das sementes plantadas).

 

Separar o absurdo, e as probabilidades provenientes desse mesmo absurdo sobre o clero Paleo-Pagão de Europa, incluindo aqueles que inspiraram os druidas modernos,  será um trabalho árduo. Mas os resultados devem valer a pena, uma vez que iremos ter uma imagem muito mais clara e real das Velhas Religiões da Europa que os Neo-Pagãos nunca antes tiveram. Isto irá ter consequências litúrgicas, filosóficas e políticas que afectarão o nosso futuro, e o do nosso planeta, por muitos anos.

Copyright © 1984, 2001 c.e., Isaac Bonewits

Tradução para o Português de CelticOak 2000 ®

O Paleo-Paganismo Europeu e o seu Clero